terça-feira, 29 de maio de 2007

Mataram João Ninguém

Mataram João Ninguém
Quando o próximo sangue jorrar
daquele por quem ninguém irá chorar,
daquele que não deixará nada para se lembrar
daquele em quem ninguém quis acreditar.

Quando seus olhos só puderem fitar o escuro
quando seu corpo já estiver inerte, frio e duro,
quando todos perceberem morto João Ninguém
e quando longe de todos ele será seu próprio alguém.

Tantas mãos, tantas linhas incertas,
tantas vidas cobertas, sem ninguém pra sentir.
Tantas dores, tantas noites desertas
tantas mãos entreabertas, sem ninguém pra acudir.

Qualquer dia vou despir-me da luta
pisar em coisas brutas, sem me arrepender.

Tão difícil ver a vida assassinada
quando estamos já tontos pra tentar sobreviver.

As perguntas sem respostas, sem nada,
as vidas curtas e desamparadas
o último grito que não foi ouvido
calaram mais um homem iludido.

E no mundo não dão mais argumentos
pra fugir aos lamentos de quem sozinho falece.

Para esses não há mais compreensão,
não há mais permissão, para que se tropece.

Na televisão, o aguardo da cotação
um instante ocupado, para dizer morto João Ninguém.

Mas a aflição ataca, a cotação subiu ou caiu?
E João morreu... ninguém ouviu.

Eu vou distribuir panfletos,
Dizendo que João morreu
Talvez alguém se recorde
do João de que falo eu.

Falo daquele mendigo que somos
Pelo menos em matéria de amor,

daquele amor que esquecemos de cultivar
O qual com tanto dinheiro, ninguém jamais coroou.

Anderson Herzer

Bianca costuma divagar sobre ônibus e nada ás terças, mas não encontrou um assunto interessante para falar. Ela queria falar sobre um projeto do Kassab de recompensar financeiramente alunos de escola pública por passarem de ano, mas não encontrou a matéria base para ter argumentos. Então... divirtam-se com o João Ninguém.

6 comentários:

Rose Soler disse...

João Ninguém... Fico me perguntando quantos "João Ninguém" cruzam nosso caminho todos os dias.. quantos tem o mesmo destino do personagem do poema e seu fim tem o mesmo tratamento: apenas engrossam as estatísticas da editoria de polícia dos jornais populares.
Mesmo fugindo, a bendita semiótica me persegue... afinal, só ela para explicar a sedação da qual estamos sendo vítimas. Somos bombardeados com tantas informações novas (ou nem tanto..) todos os dias que deixamos de dar importância a coisas que ocorrem diante de nossos olhos..

Belo post Bianca. Alternativa inteligente para a matéria do Kassab. Agora, fica uma pergunta: o que ele daria de presente a um aluno que passasse de ano???

X-EGG disse...

rs...rose de soler...rosangela...a semiótica não faz a gente ver nada disso que vc disse ..pelamordedeus...tou com birra de semiótica....mas eu sei que no fundo é uma ciência e tal..rs...no fundo...( um dia eu viro cientista social e meu mau humor se acaba)

Rose Soler disse...

Gisele... Gisele.. pq tanta birra com a Semiótica?? Afinal, ela é uma ciência tão importante quanto as que compõem o curso de Ciência Social...rs
Bem, não sei se levo ou não jeito com ela, mas descobri uma utilidade prá ela. Finalmente posso tentar entender, com a ajuda da Semiótica, coisas que antes passavam desperbidas diante dos meus olhos. Será que minha venda finalmente caiu? Se caiu, será graças à Semiótica..hehe

Carolina Pera disse...

Háhá todos nós somos o tal do Jão ninguém, pelo menos para alguém, pois muitas vezes não somos ninguém para alguém há há há, vou parar antes que eu confunda alguém!!

Beijo

RDS disse...

João ninguém, sou um Renan ninguém, João me parece muito sério. MAs o texto é demais.
Mataram nossa sensibilidade, nosso dia-a-dia mais tranquilo, mataram nossa cidade, em cada esquina, beco, bar ou mendigo caído.
O amor ta em falta, as pessoas rezam por atenção e cada vez mais nos distanciamos. Acho que não é um texto desinteressante, às vezes quando nosso assunto acaba, falamos daquilo que realmente importa.
Beijos

Anônimo disse...

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